Passados são os tempos em que as pessoas diziam que Aracaju é uma capital tranqüila, sem violência, sem tumulto. Hoje em dia, por exemplo, para se pegar um ônibus é uma trabalheira só! Eu estou fazendo um curso técnico de eletrônica pela noite desde o início do ano e todo dia é a mesma chatice – sair de casa, ir para o ponto e... sofrer!!!
Eu moro muito próximo do terminal D.I.A e apesar disso muitas vezes gasto um tempão pra chegar lá. Lá chegando, sinto-me aliviado: por pouco tempo. Uma multidão de pessoas como se fossem formigas no formigueiro começam a lutar por seu metro quadrado a fim de estar numa boa posição para pegar seu transporte. Eu, que não sou besta, também luto pelo meu espaço e fico logo na ponta da calçada.
Dois minutos. Cinco. Agora dez. Vamos pra vinte e nada do Marcos Freire III/ D.I.A, a única linha que passa no local onde faço o curso, chegar. A essa altura do campeonato, o povo já ta se embolando à espera do buzão. De repente, avisto o dito cujo. Todos ficam a postos, como um leão a olhar sua presa, pronto para dar o bote. Eu, que tenho anos de experiência e que estou concluindo o doutorado de como pegar um buzu e descolar um assento, sempre fico posicionado no local onde a porta do ônibus abre, ganhando vantagem sobre os demais. Antes que o ônibus abra, porém, o povo já ta atrás de mim me empurrando, como se eu pudesse contradizer a lei da física e entrasse no ônibus com a porta fechada ou como se eu pudesse atravessar as pessoas que tentam descer do ônibus.
Minha ânsia para ir sentado é muito grande e eu tenho tanta certeza quanto dois e dois são quatro que eu vou conseguir. Vejo um assento fresquinho e corro pra ele, quando me deparo com uma mochila colocada ali por um pedreiro ou alguém da mesma espécie, que pensa, como os latifundiários no Amazonas, que se ninguém ta usando a terra, eles podem cercá-la e dizer que é deles, mesmo sendo ilegal. Assim, eles se apropriam do lugar dos outros ilegitimamente.
Não desisto! Corro para um assento que está ali a me olhar, desejando que eu vá descansar minha poupança nele. “Ai!”, eu grito. Um outro pedreiro meteu o dedo sujo no meu olho, quase me cegando e se apropriou do meu lugar. A essa altura do campeonato, todas as formigas já estão dentro da grande Volkswagem e o motorista já tá a cem por hora, buzinando, fazendo curvas impossíveis que desafiam o atrito que há nos pneus do automóvel. Ficamos mais embaralhados do que peça de dominó e mais amassados que purê de batata. Pra melhorar, aquele cheiro de pedreiro que trabalhou oito horas a fio começa a entrar nas narinas e o calor do verão nordestino transforma toda a cena numa maravilhosa e relaxante sauna.
Vinte minutos depois de conhecer o paraíso, avisto o meu ponto. Puxo a cordinha e, após driblar meus adversários mais rapidamente do que Pelé, vibro por sair dali como se houvesse feito um gol de placa. Estou livre! Vitória! Bem, pelo menos até amanhã, quando receberei novos empurrões, cutucões, dedo no olho, fedor de gambá e tudo o que há de bom e de melhor reservado pro cidadão brasileiro!




